sábado, outubro 09, 2004

Estupefacção

A minha reacção no que toca ao caso Marcelo varia entre a estupefacção e a incredulidade. Como é possível tudo isto se estar a passar? Não é apenas a tentativa de censura em si mesma, mas a forma óbvia e despudorada como está a ser levada a cabo que nos devia chocar a todos.

Um ministro resolve tecer as considerações que teceu sobre as opiniões emitidas por um comentador, sobre o facto de esse comentador ter o espaço e as condições que tem para as emitir, e remata apelando à intervenção da Alta Autoridade para a Comunicação Social para resolver o assunto. O comentador diz que a resposta segue no seu comentário do próximo domingo. Mas, entretanto, o director do grupo que detem a cadeia de televisão em que esse espaço de comentário tem lugar convoca-o para uma reunião, e o comentador anuncia que os seus comentários terminaram.

Este é o relato factual da cadeia de acontecimentos e parece-me que se pode concluir, pelo menos, o seguinte: Não foi por iniciativa de Marcelo que os seus comentários cessaram. Logo, é evidente que houve "algo" nessa reunião que o levou a tomar essa decisão, e é ainda evidente que a esse "algo" não foi indiferente o facto de o ministro ter feito as declarações que fez.

O jornais comentam que os accionista do Grupo Media Capital vinham a sentir-se incomodados com o facto de os comentários de Marcelo na TVI poderem prejudicar oportunidades de negócio para o grupo. Como se não fosse suficiente, vem-se a saber (vale a pena ler o quem escrito o Abrupto e outros sobre o assunto) que o governo encetou contactos com outros países na UE para verificar se, nos respectivos países, havia programas de televisão em que um comentador com perfil político fazia análise à vida política interna sem ser sujeito a contraditório (meu deus, será que isto é de gente normal?), informação que o ministro vem depois usar como argumento. Para terminar, parece que Santana Lopes já havia assumido perante o PSD a intenção de intervir na Comunicação Social.

Algo de muito errado se está a passar...

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